UMA CASA CHEIA DE BOAS INTENÇÕES

Ela tinha encanto, magia, vida e alma. Refletia um pouco de cada um dos filhos, como desejou meu pai.

Meu pai nunca se sentou nos bancos de uma faculdade. Há quase 30 anos, deixou o Rio de Janeiro e retornou a Dona Euzébia, na zona da mata mineira, onde nasceu e de onde saiu, com a família, para que meus irmãos e eu estudássemos na cidade. Na bagagem, carregava a seguinte certeza: queria construir uma casa para receber os filhos e os netos, e nela viver tranquilo. Mas não uma casa qualquer – ela precisava ter encanto e magia. O significado disso entendi aos poucos, durante a obra, e até mesmo anos mais tarde, quando ele já não estava mais entre nós. De mala e cuia, foi em busca de seu sonho. Comprou uns dois mil m², às margens de um rio encachoeirado, cercado por colinas verdejantes. Com alguma ajuda, ergueu um pequeno cômodo, no qual dormia e olhava para o lugar, visualizando a morada. Depois de muitos rascunhos, saiu o desenho da construção de três pavimentos. O primeiro, na parte inclinada do lote, abrigaria um mini apartamento anexado a uma ampla varanda, destinada às festas em torno de uma extensa mesa, com as mais deliciosas comidas preparadas por minha mãe. No piso intermediário, ficaria a residência principal, contornada por outra varanda, que se alargaria na área da cozinha, formando uma espécie de alpendre. Seria o local para contar os “causos”. No terceiro andar, ele dispôs uma suíte e um terraço parcialmente coberto. À noite, um tapete de estrelas se encarregaria de formar o restante do telhado. E mais: de todos os cantos da casa, seria possível ver o sol escorregar atrás dos morros, deixando um rastro de luz dourada no rio. Meu pai chamou um arquiteto para cuidar do projeto, mas não sossegou. Juntou-se aos pedreiros e trabalhou como ninguém. Quando chegou a hora dos acabamentos, os filhos entraram em cena. Para ele, era importante que o espaço refetisse a gente. Assim, um deu o piso, o outro, os tijolinhos da parte externa, alguém providenciou as réguas de madeira para fechar a varanda, e por aí foi. Contribuí com as janelas e portas. A morada ficou charmosa e acolhedora, mas a história não acabou aí. Sem conhecer o termo “radiestesia” (hipotética sensibilidade a determinadas radiações, como energias emitidas por seres vivos e elementos da natureza ), ele saiu pelo terreno com uma varinha verde em punho. Dizia: “Onde ela começar a tremer, pode contar que ali tem água!”. De posse dessa sabedoria popular, encontrou o que procurava. Mandou furar o poço, e a fonte brotou pura e cristalina. Como arremate, pediu que cada um de nós plantasse uma árvore. O pomar cresceu. Os filhos, vindos de vários cantos, chegavam nas datas comemorativas, e tudo era uma grande alegria porque aquela casa, feita com amor e boas intenções, proporcionava isso. Tinha vida e alma, como meu pai havia sonhado.

01-uma-casa-cheia-de-boas-intencoes

Matéria publicada na revista Arquitetura e Construção em Abril de 2014.

Acompanhe Gisele Fernandes no Facebook:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *