ARQUITETO AUSTRÍACO HARRY SEIDLER MISTURA BAUHAUS E NIEMEYER

Do lado de fora, são formas que “afligem as mentes acostumadas a projetos racionalistas”. Mas, por dentro, há uma “lógica inatacável” e grande “clareza estrutural”.

Harry Seidler entendeu desse jeito a obra de Oscar Niemeyer. Esse arquiteto austríaco, morto aos 82, há oito anos, chegou a dizer que Niemeyer era uma “ave do paraíso do mundo arquitetônico”.

E de paraíso ele entendia um tanto. Da mesma forma que o brasileiro morto há pouco mais de um ano traduzia as curvas da paisagem e das mulheres na estrutura de seus prédios, Seidler fugiu do Holocausto e fincou raízes na Austrália, onde criou sua versão de modernidade tropical.

Mas antes de chegar a Sydney, onde construiu mais de cem projetos, entre casas e arranha-céus, Seidler estudou com Walter Gropius, fundador da Bauhaus, a escola alemã que serviu de verdadeira gênese do projeto moderno.

Foi a caminho da Austrália que o arquiteto passou três meses no Rio e injetou as curvas de Niemeyer em seus traços cheios de ângulos retos.

Tanto que em Sydney ele ergueu uma garagem no mesmo formato do telhado ondulante da igrejinha da Pampulha, em Belo Horizonte, e numa de suas casas fez uma cobertura que lembra o encontro de duas ondas do mar.

Sua arquitetura, agora revista numa grande retrospectiva no Museu da Casa Brasileira, é um bicho híbrido -um cruzamento da Bauhaus com o lado mais ensolarado do modernismo carioca.

“Ele não queria revolucionar a arquitetura”, diz Vladimir Belogolovsky, curador da mostra. “Sua estratégia foi só refinar alguns princípios.”

Entre eles, ambiciosas estruturas em balanço, como varandas que parecem flutuar sobre os vazios do terreno, plantas livres, acabamentos em materiais industriais e superfícies de vidro.
Mas Seidler foi além do diálogo com arquitetos e soube refinar ideias de artistas visuais como Theo van Doesburg, Alexander Calder e Frank Stella, adeptos de uma geometria mais minimalista.

“Há uma relação muito forte entre a geometria de seus prédios e as pinturas de Frank Stella, que sempre trabalhava repetindo quadrados e semicírculos”, diz o curador. “Sua arquitetura era uma série de espaços contínuos.”

Ou entrelaçados. Sua casa em Sydney lembra uma cascata vertiginosa de paredes de concreto fincadas num terreno íngreme, como se acabassem de cair do céu numa tempestade quase perfeita —o caos da natureza domado por seus ângulos retos.

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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 16 de Fevereiro de 2014 por Silas Martí

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